TDAH na Infância

Muito além da falta de atenção

TDAH

Pâmela Cardoso

9/19/20263 min read

TDAH na infância: muito além da falta de atenção

Quando falamos em TDAH — Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, muitas pessoas ainda imaginam apenas uma criança agitada, que não consegue ficar sentada ou que se distrai com facilidade. Mas o TDAH é muito mais amplo do que isso.

Ele é um transtorno do neurodesenvolvimento que pode envolver dificuldades relacionadas à atenção, impulsividade e/ou hiperatividade, com manifestações diferentes de uma criança para outra.

Na aprendizagem, seus impactos também podem aparecer de diversas formas.

Uma criança com TDAH pode compreender o conteúdo e ter um bom potencial cognitivo, mas apresentar dificuldade para organizar-se, iniciar e concluir uma tarefa, manter a atenção, seguir uma sequência de etapas, controlar impulsos, administrar o tempo ou lembrar informações importantes enquanto realiza uma atividade.

É por isso que, muitas vezes, escutamos frases como:

“Ele sabe, mas erra por falta de atenção.”

“Ela começa a atividade e não termina.”

“Preciso repetir várias vezes a mesma orientação.”

“Na prova, parece que esqueceu tudo o que estudou.”

“Ele lê, mas se perde no meio do texto.”

Esses comportamentos não devem ser analisados isoladamente. Precisamos compreender quais habilidades estão por trás deles.

TDAH e funções executivas

Um ponto muito importante no acompanhamento de crianças e adolescentes com TDAH são as funções executivas.

Podemos pensar nelas como habilidades que ajudam o cérebro a organizar e direcionar o comportamento para alcançar um objetivo. Entre elas estão a memória de trabalho, o controle inibitório, a flexibilidade cognitiva, o planejamento, a organização e o monitoramento das próprias ações.

Imagine uma criança que precisa resolver um problema matemático. Ela precisa ler, identificar as informações importantes, manter esses dados mentalmente, escolher uma estratégia, realizar os cálculos, controlar a vontade de responder rapidamente e, ao final, conferir o resultado.

Perceba quantas habilidades estão envolvidas em uma única tarefa.

Quando existem fragilidades atencionais ou executivas, o desempenho acadêmico pode ficar abaixo daquilo que a criança realmente é capaz de realizar.

Nem toda dificuldade escolar é TDAH

Esse é um cuidado fundamental.

Desatenção, dificuldade para concluir atividades ou baixo rendimento escolar não significam automaticamente TDAH.

Questões emocionais, dificuldades específicas de aprendizagem, alterações no sono, fatores ambientais e outras condições também podem interferir no desempenho da criança.

Por isso, o diagnóstico não deve ser realizado a partir de um comportamento isolado ou de um único teste. É necessária uma investigação clínica criteriosa, considerando o desenvolvimento da criança, os diferentes ambientes em que ela está inserida e a avaliação realizada pelos profissionais responsáveis pelo diagnóstico.

Qual é o papel da psicopedagogia?

No acompanhamento psicopedagógico, o olhar não está apenas sobre aquilo que a criança “não consegue fazer”.

Buscamos compreender como ela aprende, quais habilidades estão preservadas, onde estão as fragilidades e quais estratégias podem ajudá-la a avançar.

Dependendo das necessidades identificadas, o trabalho pode envolver atenção, memória de trabalho, planejamento, organização, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, leitura, escrita, matemática, estratégias de estudo e desenvolvimento da autonomia.

E aqui existe uma diferença importante: atendimento psicopedagógico não é reforço escolar.

O objetivo não é simplesmente repetir o conteúdo da escola. É compreender os processos envolvidos na aprendizagem e intervir sobre as habilidades que estão dificultando o desempenho acadêmico.

A criança precisa compreender o próprio funcionamento

Também considero muito importante que a criança compreenda, de maneira adequada à sua idade, o que acontece com ela.

Quando entende que determinadas tarefas podem exigir mais esforço e aprende estratégias para lidar com essas dificuldades, ela começa a construir maior autonomia.

O TDAH não deve se transformar em um rótulo ou em uma justificativa para tudo. O diagnóstico deve servir como um caminho para compreender, acolher e direcionar intervenções mais adequadas.

Com acompanhamento, estratégias consistentes, parceria entre família, escola e profissionais e respeito às necessidades individuais, a criança pode desenvolver recursos importantes para sua vida acadêmica e para além dela.

Avaliar é compreender. Intervir é oferecer caminhos para que essa criança desenvolva todo o seu potencial.

Pâmela Alves Cardoso

Psicopedagoga Clínica 🦋